Vou festejar!

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por MARISA TORRES

Bate-bola. Não, não estou retomando temas de Copa do Mundo. Estou falando de algo importante em todas as carreiras e empresas que pretendem uma gestão de sucesso.

Um bom gestor tem a capacidade de reconhecer os talentos que o cercam e revelá-los para o mundo. E fazer com que o trabalho dessas pessoas sob o seu comando, às vezes restrito a um pequeno grupo, uma comunidade específica, chegue a projeções exponenciais. Isso, porque consegue avaliar o que tem diante de si. Ou seja, gestor de verdade tem essa capacidade de reconhecimento. É como o jornalista diante de um fato. Ele sabe o que é ou não notícia.

Para isso é preciso humildade, atenção para com o outro, disponibilidade e um pouco de ousadia de fugir dos modelos tradicionais das quase sempre manipuladas avaliações 360 graus ou coisas do gênero. Estou falando de usar menos o GPS e mais o instinto, cujos sinais vêm do coração, da euforia de se envolver com alguma ideia a ponto de não ter medo de que ela cresça. Ou saia do controle.

Eu vou dar um exemplo muito simples e arriscaria dizer que qualquer bom brasileiro conhece bem. O expressivo sucesso da música Vou Festejar, gerenciado e não apenas cantado pela sambista Beth Carvalho, começou assim. A cantora se atreveu a vislumbrar numa comunidade de sambistas de raiz, que estava diante de algo extraordinário. A música, por sua vez, estava lá para todo mundo cantar e sambar. Mas ela foi um pouco além. E é disso que eu estou falando. Estou apontando para profissionais que conectam pessoas talentosas a outras, ideias a ideias e constroem algo realmente transformador seja na vida ou na arte.

Um documentário com depoimentos sobre a trajetória desse sucesso de audiência mostra como essa música que, apesar de conter uma história da celebração de uma revanche ou vingança, de um jeito alegre e saboroso, se transformou num hino nacional, sempre lembrado em todo tipo de festividade, do carnaval às torcidas do Galo e do Atlético Mineiro e tantos outros times de futebol. Levantou estádios e shows.

A cantora procurou seu produtor e o convenceu que tinha algo importante em mãos. O mais interessante é que Beth decidiu, então, fazer o disco inteiro com as músicas dessa comunidade. Ela conta que, em geral, não escolhe as músicas de um disco. Ela grava muitas músicas tipo 40 no total. E depois reúne pessoas de diferentes níveis culturais, sociais e profissionais para opinar e ajudarem na seleção que vai compor o álbum. Esses encontros ela chama de bate-papo.

Ahh, que bom seria se os projetos corporativos levassem esse mesmo tipo de assinatura. Mais bate-papo, mais aceitação por parte de diferentes pontos de vista, de reunir os diversos talentos em torno de uma ideia maior. Mas no mundo corporativo, mais fácil é colocar de lado os talentos, ainda que investimentos altos sejam feitos em sua formação, a ter de lidar com uma opinião divergente. E com isso calamos a boca da gestão das pessoas. É como um compositor ou cantor cuja música nunca chegou às paradas.

A música Vou Festejar se transformou num fenômeno. E foi regravada na voz de muitos outros artistas e grupos que vão de Fundo de Quintal, a Monobloco e Arnaldo Antunes.

A música simplesmente tomou conta e se manifestou à exaustão na folia de multidões. E Beth conta que Vou Festejar  encerra desde então todos os shows. Ela é tão forte, tão envolvente, que não adianta tentar cantar nada depois disso. Ou seja, ela é o fim e o ápice, em si!

Aqui vale a pergunta. O que o seu gestor anda fazendo? Escolhendo as músicas do disco sozinho? É isso? Escondendo ou se livrando em vez de revelar os talentos que gravitam a sua volta? Se as respostas a essas perguntas são afirmativas. Cuidado, ele simplesmente tirou da lista de tarefas o bate-papo. Então vou arriscar dizer que talvez algum dia ele vá receber a música Vou Festejar, de presente.

Vou Festejar

Compositor: Jorge Aragão/Neoci Dias/Dida

Chora, não vou ligar

Chegou a hora

Vai me pagar

Pode chorar, pode chorar

É, o teu castigo

Brigou comigo

Sem ter por que

Vou festejar, vou festejar

O teu sofrer, o teu penar..

Você pagou com traição

A quem sempre lhe deu a mão

Você pagou com traição

A quem sempre lhe deu a mão

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