Aposta real

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por Marisa Torres

Quando será que o LinkedIn vai acordar?

Quando vai mirar para a imensidão de histórias reais que ele atrai, mas esconde nas entrelinhas do politicamente correto na carreira?

Que carreira? Aquela que agora exibimos nas fotos de posts felizes, mas que, de fato, nos coloca na UTI dos hospitais. Senão dos hospícios?!

Mas vamos retomar os posts do LinkedIn. Talvez você preferisse ver aqui um post de um sorriso Colgate entre um cliente e um vendedor. Ou entre um grupo enorme de profissionais e a visita surpresa do chefe que fica a quilômetros de distância, mas hoje resolveu tomar caipirinha de graça no Brazil, digo Brasil.

Mas o que eu vejo é uma imitação de um Facebook trágico. O que há de errado com o real? Por que não usamos todas essas experiências para contar o quanto este mercado de trabalho tem nos tornado infelizes?

Por que não conseguimos medir as gestões de RH como deveríamos? Uma vez que elas pouco se importam de fato com o que as pessoas consideram importantes para a vida como um todo?

Por que o LinkedIn não está aqui para nos ajudar a refletir sobre nossas experiências profissionais? Um bom começo seria remunerar as pessoas e os posts para contar suas histórias reais. Com nome, sobrenome e empresas.

Muita ousadia, não? Seria impossível falar a verdade sobre nossos empregos, certo!? O quanto estamos desapontados, infelizes e doentes. E achamos tudo isso normal e nos mantemos, dia após dia, fazendo a mesma, mesmíssima coisa e postando fotos para impressionar nossos amigos que fazem o mesmo, sem a coragem de questionar o ritmo chato e previsível de vida que levamos adiante. Lógico que podemos, estamos empregados, o que mais nos falta? Falta a dignidade de assumir que não é bem isso que nos faz feliz.

No momento em que uma URL ou qualquer endereço de conexão verdadeira abrir espaço para as pessoas dizerem o que de fato sofreram em suas carreiras talvez seja mais impactante fazer parte dela.

Uma URL que promova a verdade das relações profissionais e interpessoais, antes que se possa pedir por uma entrevista de emprego.

Enquanto nos escondermos atrás de fotos-sorriso com chefes que odiamos e nos odeiam. Enquanto continuarmos a colocar no ranking das melhores empresas aquelas que nos envergonham nas manchetes de jornais em escândalos de roubos e subornos.

Enquanto acharmos normal ter de ser humilhados ou sujeitos a desaforos nos processos de seleção que não passam de uma triagem vulgar que não mede esforços em menosprezar profissionais do mais alto padrão.

Enquanto estivermos vivendo neste ambiente, o emprego que você deseja é tudo que você vai ter. Exatamente o que está descrito acima.

Quando vamos ter a coragem de abrir espaço para falar a verdade do que acontece no ambiente de trabalho?

Alguém aí se candidata? Vamos começar com uma verdade leve, em vez da completa. Talvez você possa usar um codinome, como nos tempos da ditadura. Ou talvez falar daquele emprego que você deixou para trás e não te afeta mais e não abrir logo de cara o nome de todos os teus ex-chefes que te seguem aqui. Talvez até só mencionar o ramo de atividade da empresa, sem citar nomes. Mas se a tua história for boa, sincera, garanto que vai te fazer muito bem escancarar isso e alertar quem está entrando nesta selva… e tem a doce ilusão de que tudo vai ser como as fotos do LinkedIn.

Talvez seja também a única forma de salvar o LinkedIn da mesmice de sempre. E de uma debanda geral em breve. Quem deseja conexões que não são verdadeiras? Uma vez que nem emprego você encontra aqui mesmo. No máximo, um sorriso falso, a espera daquele like que não virá. Nem aqui, nem lá.