Um tempo para não trabalhar

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por Marisa Torres

Um bom plano de carreira deveria conter a meta de ficar um tempo sem trabalhar. Não porque você perdeu o emprego. Mas deveria ser uma das metas de vida. Sim, é preciso coragem para dar esse passo. E se isso acontecer no momento de um desemprego. Sem problemas, porque está entre os teus planos, entre as tuas metas de vida e carreira.

E eu não estou falando de licença paternidade ou maternidade. Ou por motivos de saúde. Não. Estou falando de escolher ficar sem trabalhar, sem nenhum tipo de remorso.

Isso significa ficar um pouco sem aquelas outras metas que você já conhece tão bem. Vamos resumir. Sim, um ano para não ter metas. Para viver o dia a dia, sem esperar nada mais do que o dia tem para te dar.

Desfrutar um pouco daquela casa que você comprou, ou construiu e decorou com tanta paixão. Passar um tempo nela, que não seja apenas para dormir e acordar apressado para sair no dia seguinte.

Um tempo para brincar com os cães, que te acompanham por tanto tempo e imploram um pouco de atenção, sempre tão descuidada.

Um tempo para tomar café da manhã na varanda para harmonizar a alma ao vento que o dia sopra nos teus cabelos.

Um tempo para atender todos os chamados dos amigos para um café. Que delícia. A qualquer hora.

Um tempo para viajar sem muito destino. Sem hora de voltar. Sem data combinada com o retorno das férias.

Um tempo para dizer sim: seja buscar alguém no aeroporto; seja preparar um jantar, seja ler uma poesia. Ou vasculhar os álbuns de fotos antigas. Ir a um velório e sentir que o tempo vale pouco. Ou muito.

Um tempo para escrever um texto que talvez você nunca vá publicar. Vai ficar lá esperando para ser lido daqui a dez anos. Ou mesmo para rasgar, em seguida, porque você já experimentou tudo que ali está.

Um tempo para namorar. E sorrir. E conversar com amorosidade.

Um tempo para ouvir os amigos que estão com projetos que vão mexer muito com a vida deles e precisam de alguém para tentar vislumbrar o sonho.

Um tempo apenas para gastar o dinheiro que você suou para ganhar, mas que vai se permitir. Sem produzir nada. Apenas gastar. Um tempo sabático que não precisa ser o Caminho de Santiago da Compostela, que depois vira livro. Não, nada disso. Senão vira meta sob meta.

Apenas um tempo para abraçar pequenas coisas do cotidiano que te passam despercebidas. Uma loja nova no bairro que você nunca entrou, mas que tem peças de arte, artesanato e designers. Sem falar do pé de banana na porta. Ver as pitangas caindo do pé e manchando de vermelho a calçada que te leva. E o perfume te lembrar de alguém que ama aquela fruta. Sim, estamos falando de um deslocamento interior, nada de sala VIP no aeroporto de Frankfurt!

Um tempo para abraçar por mais tempo a tua mãe, que já está mais lenta em todos os movimentos. Mas te ama ainda mais e mais. E se tornou a pessoa mais doce que você conhece.

Um tempo para rir de si. Um tempo para curar feridas do amor, que o expediente de reuniões não te permite. Afinal, você tem de estar sempre bem. Sem olhos inchados, sem noites perdidas.

Um tempo para ir a uma festa na praia. Seja ela de Iemanja, ou de Ano Novo, ou comandada pelo DJ Tiesto. Ou ainda, um bate-volta para passar o dia com os pés dentro do mar. Catando conchinhas e pisando na areia molhada. Mergulhar até achar uma estrela para enfeitar um espelho do teu quarto. Ou te lembrar daquele dia.

Um tempo para acender uma luz, um incenso de mirra e agradecer aos teus anjos toda a proteção recebida. Ou ainda, simplesmente rezar por alguém que naquele momento precisa superar uma aflição. Qual empresa na qual trabalhou tem um altar, um santuário ou uma capela?

A maioria das pessoas de sucesso profissional tem um plano bem definido de carreira? Talvez não. Muitos certamente ouviram a voz da intuição e se lançaram às oportunidades a tempo de surfar na onda com elas e completar a bateria para a próxima etapa.

Que tal se a tua próxima onda for experimentar um tempo sem trabalhar? Você consegue se imaginar desfrutando o tempo pelo tempo? E nada mais?

Sim, muitos vão dizer… – mas como eu vou pagar as minhas contas?! E como você vai pagar as tuas contas se uma doença te mobilizar? E se você morrer?

Faça uma poupança especial para isso, como você faz para cuidar da educação dos filhos, ou para pagar a empregada doméstica ou aquela viagem a Disney.

Então, seria melhor esse plano desenhado em outra esfera. Que ele estivesse assentado na folha doce de te permitir ser algo que você nunca pensou ser. Que de fato nunca foi.

Eu sei, ainda, que muitos vão dizer: será difícil a certo ponto retornar ao mercado de trabalho. Com certeza. O que dizer ao futuro empregador? Eu tenho certeza que você vai ter tempo de pensar nisso, mas fica a dica: seja honesto. Diga que tirou um tempo para apreciar a vida. E se reconectar com você e valorizar algumas bênçãos do dia a dia. Diga que teve a coragem de fazer isso. Se a empresa não entender, ela certamente não é a empresa certa para você.

Mas não deixe que o tempo livre venha só quando estiver aposentado. Coloque uma meta na tua vida, agora. Você não precisa odiar o trabalho ou seguir websites com essa URL. Não.

Você precisa pensar que o trabalho pode ser apenas uma parte menor da tua vida. E ir fazer o ajuste certo a isso. Até chegar a hora de cumprir a meta.

O bônus? Isso você me conta depois que bater a meta. Mas posso te garantir, antes de tudo, que a moeda é a mesma: um tempo de grande aprendizado.